Cuidar da saúde de uma criança vai além de peso, altura e vacinas. Envolve também o modo como ela se sente amada, segura e parte de algo maior.
O tema ganhou espaço na pediatria. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) mantém um grupo de trabalho sobre saúde e espiritualidade. Em setembro de 2026, publicou um documento científico sobre a espiritualidade como fator de proteção na adolescência. A Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) tem um núcleo de estudos dedicado ao assunto.
Falar de espiritualidade não é ensinar uma religião, nem dizer no que uma criança deve acreditar. É reconhecer que vínculo, sentido, valores e esperança também fazem parte do desenvolvimento.
Neste texto, explico como a espiritualidade aparece do bebê ao adolescente e o que a ciência diz sobre ela.
Essa distinção é o ponto de partida. Ela vem de autores de referência na área, como Christina Puchalski e Harold Koenig.
É a busca de sentido e propósito na vida. É também a forma como nos conectamos conosco, com o outro, com a natureza e com o sagrado.
É um sistema organizado de crenças, rituais e símbolos, compartilhado por um grupo.
É o quanto a pessoa segue e pratica uma religião. Pode ser em grupo, como ir ao culto ou à missa, ou em privado, como orar ou ler textos sagrados.
A religião é um dos caminhos para a espiritualidade, mas não o único. Música, arte, natureza, meditação e vínculos afetivos também abrem essa porta. Famílias sem religião também podem cultivar a espiritualidade dos filhos.
O bebê ainda não entende o que é religião. Para ele, a conexão com algo maior acontece pela sintonia afetiva com quem cuida.
Segundo a SBP, esse laço começa ainda na gestação e continua na amamentação. O leite materno muda de composição conforme a necessidade do bebê, num diálogo contínuo entre os dois organismos.
O bebê também é sensível ao estado emocional de quem cuida. O estresse materno pode repercutir no bebê, inclusive no sono. Por isso, cuidar de quem cuida também é cuidar da criança.
O pai, ou outra figura de apoio, tem papel essencial. Ao apoiar a mãe e se fazer presente com carinho, ele amplia a sensação de segurança e confiança do bebê.
A adolescência é uma fase de grandes mudanças. O corpo muda, os relacionamentos mudam, cresce a busca por identidade, pertencimento e autonomia. É também quando surgem as perguntas sobre quem sou e para que estou aqui.
Nesse cenário, ter vínculos, esperança e um sentido para o que se vive funciona como recurso para atravessar dificuldades. É nessa fase que o efeito da espiritualidade foi mais estudado.
Os documentos da SBP e da SPSP reúnem pesquisas que apontam na mesma direção: adolescentes que cultivam a espiritualidade tendem a se envolver menos em comportamentos de risco e a ter melhor saúde mental.
Alguns exemplos:
Jovens com prática espiritual regular tendem a ter mais autoestima e satisfação com a vida.
Quanto mais presente a espiritualidade, menor tende a ser o uso de álcool e outras drogas na adolescência.
Quando a fé é importante para os pais, os filhos têm menor risco de pensamentos e tentativas de suicídio. A espiritualidade também está associada a menor risco de depressão. Mas experiências religiosas negativas, marcadas por medo ou culpa, podem piorar a saúde mental.
Para o adolescente, a vivência íntima pesa mais do que a frequência a cultos. Frequentar cultos sem uma espiritualidade vivida de verdade não traz o mesmo benefício. O que parece proteger é a esperança e o sentido de vida.
Este é um dos pontos mais delicados. As pesquisas encontram, em geral, associação entre espiritualidade e menor risco de suicídio na adolescência. Mas associação não significa causa, e os resultados não são iguais para todos os jovens.
Por isso, o mais correto é dizer que a espiritualidade pode estar associada a fatores que protegem a saúde mental: esperança, pertencimento, apoio social e razões para viver. Isso é diferente de dizer que ter fé evita o suicídio.
A espiritualidade não substitui avaliação e tratamento. Diante de sofrimento emocional importante, procure o pediatra ou um profissional de saúde mental. Em situação de crise, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
A espiritualidade não protege de qualquer jeito. O que importa é a forma como ela é vivida.
Os especialistas chamam de coping religioso ou espiritual o uso da fé para enfrentar dificuldades. Ele pode ser positivo ou negativo:
A fé traz conforto, esperança, sentido e apoio de uma comunidade. Nesse caso, protege contra depressão e comportamentos de risco. Em jovens com doenças crônicas, também ajuda na adesão ao tratamento.
A fé vem associada a medo de castigo, culpa, sensação de abandono por Deus ou conflitos na comunidade. Também quando leva a evitar ajuda, na crença de que só a oração resolverá. Nesse caso, pode fazer mal.
Estudos com adolescentes confirmam: o coping religioso positivo se associa a mais bem-estar, e o negativo, a mais sofrimento psicológico.
Uma espiritualidade saudável não combina com medo, culpa ou imposição. Ela precisa ser vivida com afeto e liberdade.
O pediatra pode, e deve, incluir a espiritualidade no cuidado integral da criança e da família. Isso vai muito além de perguntar qual é a religião.
Na consulta, o interesse está no que ajuda a criança e o adolescente a enfrentar momentos difíceis, no que traz paz e dá sentido à vida. Também está em perceber se alguma crença está causando sofrimento. A abordagem deve ser aberta, respeitosa e sem dogmas.
Não existe receita única. Mas algumas atitudes, recomendadas pela SBP, ajudam em qualquer família:
Espiritualidade não é um tema só para quem tem religião. É parte da saúde integral, do bebê que se acalma no colo ao adolescente que busca um propósito.
Ela não é uma receita para evitar o sofrimento. Mas sentido de vida, vínculos fortes, esperança e valores vividos em família ajudam crianças e adolescentes a atravessar as dificuldades sem se perder de si mesmos. E isso se cultiva no dia a dia, com presença e afeto.
Se quiser conversar sobre esse tema na consulta, estou à disposição.
Dra. Katia Regina Bueno
Pediatra · CRM/MG 36.723 · RQE 20.855